domingo, 6 de dezembro de 2009

Hoje em dia, no mundo inteiro e no Brasil, etnicidade tornou-se um termo conhecido. É parte integrante das reportagens jornalísticas sobre uma multiplicidade de temas, como a culinária exótica, as festas de regiões distantes e até a moda, com jornais publicando matérias sobre desfiles de “moda étnica”. A “etnicidade” tornou-se uma parte essencial da propaganda de produtos de beleza. O xampu para cabelo encarapinhado é hoje simplesmente chamado de xampu étnico. Ou seja, “étnico” passou a substituir termos como exótico, estranho, não branco ou, em linguagem simples, raro e diferente. Essas tendências na maneira como a cultura popular tem-se havido com a diversidade étnica e racial fazem parte de uma mudança maior e momentosa. Uma mudança que me deixa perplexo. Ainda acredito que a verdadeira beleza do Brasil está em seu povo, especialmente nos inúmeros pobres e na grande população negra e mulata.
Nas duas últimas décadas, a maioria dos pesquisadores de estudos étnicos no Brasil tem feito um grande esforço para tentar alterar a auto-imagem brasileira com respeito à diversidade étnica. Isso tem sido feito porque eles estão convencidos de que o Brasil é ou deveria ser um país multicultural e talvez até multiétnico, apesar de sua celebração da mistura racial e étnica nos discursos oficiais, ou seja, o mito da democracia racial. Este que por sua vez entrará neste cenário por volta, dos anos trinta, pautando as relações raciais e inserindo-as sobre esta dita miscigenação (atualmente, da morenidade, uma espécie de celebração ao mestiço de tez clara como síntese da “raça brasileira”). A democracia racial foi definida como o mito fundador das relações raciais brasileiras, ou seja, trata-se de um mito aceito pela grande maioria, reproduzido na vida cotidiana, e que, em certo sentido, reflete uma realidade digna de análise antropológica e não pode ser tratado como se fosse uma farsa imposta de cima para baixo a fim de ocultar o racismo, ou uma espécie de falsa consciência (étnica). Nas classes mais baixas, esse mito popular coexiste com a minimização da diferença de cor nas práticas sociais, com momentos de intimidade extra-racial e com a criação de estratégias individuais destinadas a reduzir a desvantagem racial. Isso fica particularmente óbvio em certas áreas, como a vida familiar e o lazer. Infelizmente, em algumas situações, essas estratégias individuais associam-se a tentativas problemáticas de manipular a aparência física negra no cotidiano (a exemplo de alisar o cabelo) que se baseiam no pressuposto de que existe, na sociedade brasileira, uma incompatibilidade básica entre ser negro e ter prestígio social.
Entretanto, ao optar por reescrever a história brasileira moderna como uma história étnica, fica-se diante de um dilema. Por um lado, é impossível não sentir curiosidade sobre os “outros étnicos”: os afro-brasileiros, os indígenas e os descendentes de certos grupos de imigrantes —— uma atitude rara neste imenso país em que o hibridismo e a miscigenação são celebrados nas culturas acadêmicas e populares, e no qual as pessoas supostamente não reparam nas diferenças raciais nem lhes atribuem muita importância. Por outro lado, se é verdade que a identidade étnica pode ser conducente à mobilidade social, a maioria de nós desconhece repetidamente que a identidade étnica pode relacionar-se com a mobilidade social e com a “modernidade” de diversas maneiras, e não segundo critérios universais.
O caso do Brasil demonstra com muita ênfase que a identidade étnica é um constructo social de caráter contingente e que difere de um contexto para outro. As fronteiras e os marcadores étnicos não são imutáveis no tempo e no espaço e, em algumas circunstâncias, a despeito de muitas provas de discriminação racial, as pessoas preferem mobilizar outras identidades sociais que lhes parecem mais compensadoras. Se a identidade étnica não é entendida como essencial, é preciso concebê-la como um processo, afetado pela história e pelas circunstâncias contemporâneas e tanto pela dinâmica local quanto pela global. A identidade étnica pode ser considerada como um recurso cujo poder depende do contexto nacional ou regional. Ela é, portanto, uma história sem fim. Na história do Brasil, as comunidades e a política étnicas não têm sido um fator contínuo e, nos casos em que alguns grupos mobilizaram a etnicidade, isso quase sempre foi feito de maneira discreta e/ou muitas vezes, quando se destaca a etnicidade, para a criação de estereótipos negativos.
Tentar encontrar um novo equilíbrio nesse dilema poderia trazer uma grande contribuição para a abordagem da questão fundamental levantada pelos estudos étnicos no Brasil: por que o Brasil tem uma história de racismo contra os negros? Porém o discurso da mistura étnica, corroborado pela realidade da miscigenação, tem-se revelado mais poderoso, uma vez que, em tantos outros contextos, a “raça” e a etnicidade - cuja face tenebrosa assume a forma do racismo - e a questão da “integração cultural”, ao longo da história e nos últimos anos, têm deflagrado tumultos, movimentos e guerras, mas que no Brasil, não conseguiram mobilizar o mesmo grau de emoção e ação coletivas. Isto se torna mais difícil pelo fato de que o interesse renovado na “raça” e na etnicidade, no Brasil, faz parte de uma tendência internacional generalizada, que leva em conta fatores interferentes talvez totalmente intrínsecos: o papel dos meios de comunicação de massa e da globalização e a inexistência de uma perspectiva comparada e internacional sobre as relações raciais e a etnicidade no Brasil.
A globalização permite a disseminação mundial de símbolos que estão associados a diversas identidades locais e características individuais. Esses símbolos sugerem que vale a pena ser etnicamente diferente causando a impressão de homogeneidade cultural, mesmo que o uso destes ditos símbolos se apresente como possibilidades de o individuo se mostrar como diferente. Esta perspectiva torna-se interessante no momento em que oferece a indivíduos do mundo inteiro a oportunidade de se identificarem com “subculturas” jovens, estilos musicais e outras formas espetaculares de identificação, desde que possam comprar os objetos e copiar os estilos simbolizadores do grupo em questão, podendo assim falar em identidade étnica sem que se pertença a uma cultura étnica separada e reconhecívelmente; hoje em dia, a identidade negra já não pode ser percebida independentemente da globalização. A globalização, auxiliada pelo crescimento do turismo, introduziu uma mudança maciça no cenário cultural do Brasil, e a identidade, até certo ponto, tem sido inserido no campo das mercadorias, criado pelo uso de objetos comercializados sob a forma de mercadorias de produção étnica. Temos hoje uma imensa variedade de restaurantes “étnicos”; o consumo da música mundial já não é domínio exclusivo dos intelectuais; a moda também vem embalada como “étnica”; e certos locais de lazer, como boates, clubes e agremiações esportivas, anunciam-se como espaços de “diversidade étnica” ou incorporam aspectos “étnicos” específicos.
A avalanche de coisas “étnicas” cria novas fronteiras e condições para o desenvolvimento da identidade étnica e das estratégias de sobrevivência baseadas na etnicidade. A globalização produz ideologias multiculturais, mas produz também novas formas de racismo. Com uma compreensão globalizada, parecemos estar-nos deslocando para novos conflitos, menos transparentes e menos românticos. Não obstante, os conflitos costumam ser apresentados e interpretados com base num termo abrangente simples: etnicidade. Para piorar a situação, os efeitos dos meios de comunicação de massa modificaram igualmente não apenas o grau, mas também as formas pelas quais se vêm usando as idéias de etnicidade e “raça”. No uso popular, a distinção criteriosa que os cientistas sociais vêm tentando estabelecer entre cultura, etnia e “raça” desaparece por completo. Essas categorias tornam-se fluidas e intercambiáveis causando situações problemáticas. Aliás, a força da “raça” está precisamente em sua popularidade, que caminha de mãos dadas com sua indeterminação, entretanto parece cada vez mais difícil opor a essa força da “raça” a afirmação moral -lógica e corretíssima- de que “não existem raças verdadeiras, mas apenas a raça humana”.
Curiosa e talvez ironicamente, essa renovação do interesse nas coisas étnicas ocorre num mundo que se vem tornando cada vez mais “mesclado” em termos étnicos e culturais; a política da identidade caminha lado a lado com a política do multiculturalismo, tornando-se alguns momentos quase que indissociáveis. Assim, é vital olharmos para além do conceito de etnicidade. A construção da identidade negra está associada a usos específicos do corpo (negro), e isso a distingue da maioria das outras identidades étnicas. Por um lado, a aparência “negra” e a exibição de maneirismos “negros” têm sido associadas a certos comportamentos, empregos e posições sociais. Por outro lado, a aparência física, o porte e os gestos também têm sido o meio pelo qual os negros, como população racializada, reconhecem a si mesmos e, na tentativa de reverter o estigma associado à negritude, tentam adquirir status e recuperar a dignidade. O corpo negro - que, nos relatos científicos e na literatura, não raro é mencionado no singular - é um ícone contestado.
Na formação de cada nova cultura “negra”, dinâmica que é ativada tanto de dentro quanto de fora, alguns traços e objetos são escolhidos para representar essa cultura como um todo. Ainda que os tipos de objetos escolhidos variem de um sistema de relações raciais para outro, esses objetos têm a ver com o corpo, a moda e o porte, seja como marcadores do estigma, seja como sinais de mobilidade e sucesso. Esses “objetos negros” têm sido historicamente construídos através de um intercâmbio internacional. Durante as últimas décadas no Brasil, houve algumas mudanças no tocante às identidades étnicas e é necessário destacar os importantes avanços políticos que tornaram os direitos étnicos possíveis ou, pelo menos, concebíveis.
É claro que a negritude, assim como a branquidade, não é uma entidade dada, mas uma construção que pode variar no espaço e no tempo, e de um contexto para outro. A identidade negra, como todas as etnias, é relacional e contingente. Branco e negro existem, em larga medida, em relação um ao outro; as “diferenças” entre negros e brancos variam conforme o contexto e foram definidas em relação a sistemas específicos e a hierarquias globais de poder, legitimados em termos raciais e que legitimam os termos raciais.

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